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A Netflix revisita o caso que moldou o cinema de terror como conhecemos hoje

Charlie Hunnam como Ed Gein em “Monstro: A História de Ed Gein” – (Imagem: Divulgação/Netflix)

A terceira temporada de “Monstro” chegou à Netflix nesta sexta-feira (3 de outubro) e, desta vez, Ryan Murphy escolheu um nome que transcende a categoria de “serial killer”. Ed Gein não foi apenas um assassino — ele foi, paradoxalmente, o arquiteto involuntário do terror cinematográfico moderno. Consequentemente, sua história se tornou a matéria-prima para os personagens mais icônicos do gênero.

O Fazendeiro Invisível de Plainfield

Primeiramente, é importante entender quem era Edward Theodore Gein antes de se tornar “O Açougueiro de Plainfield”. Nascido em 27 de agosto de 1906, em La Crosse County, Wisconsin, ele era o segundo filho de George Phillip Gein e Augusta Wilhelmine Lehrke. Além disso, tinha um irmão mais velho, Henry George Gein, nascido em 1901.

Augusta, sua mãe, era uma luterana fanática que desprezava o marido alcoólatra. Portanto, ela decidiu isolar a família em uma fazenda remota nos arredores de Plainfield, com o objetivo específico de “proteger” os filhos do mundo pecaminoso. Aliás, para Augusta, maquiagem, saias curtas e qualquer sinal de modernidade representavam instrumentos da perdição.

A Teia Familiar: Mortes Suspeitas e Isolamento

Em 1940, George Gein faleceu, deixando Augusta como a única autoridade absoluta sobre os dois filhos adultos. No entanto, o evento mais controverso ocorreria quatro anos depois, em 16 de maio de 1944.

Naquele dia, Ed e Henry estavam queimando vegetação em um pântano da propriedade — uma prática comum na época. Contudo, o fogo saiu do controle e mobilizou o corpo de bombeiros local. Quando Henry desapareceu, Ed guiou os policiais diretamente até o corpo do irmão, apesar da área extensa.

Oficialmente, a causa da morte foi asfixia por inalação de fumaça. Todavia, testemunhas relatam que o corpo apresentava contusões na cabeça. Ademais, Henry havia começado a questionar abertamente a influência tóxica de Augusta sobre Ed. Por conseguinte, muitos investigadores e estudiosos do caso levantam suspeitas de que Ed possa ter assassinado o irmão, embora isso nunca tenha sido provado.

O Colapso: Quando Augusta Morreu

A morte de Augusta, em 1945, após sofrer um derrame, representou o ponto de ruptura definitivo na já frágil psique de Ed Gein. Afinal, ele perdeu a única figura que havia estruturado (ou desestruturado) toda a sua existência. Posteriormente, Ed preservou o quarto da mãe como um santuário intocado, enquanto o resto da casa se deteriorava ao seu redor.

Durante os doze anos seguintes, Gein viveu em isolamento quase total na fazenda. Entretanto, sob essa aparência de fazendeiro reservado e inofensivo, ele desenvolvia uma rotina macabra que chocaria os Estados Unidos.

16 de Novembro de 1957: A Descoberta

Tudo começou a desmoronar quando Frank Worden entrou na loja de ferragens de sua mãe, Bernice Worden, e encontrou o estabelecimento vazio. Além disso, a caixa registradora havia desaparecido. Imediatamente, Worden verificou o livro de vendas e descobriu que Ed Gein havia sido o último cliente, comprando anticongelante.

Consequentemente, a polícia foi até a fazenda de Gein para investigar. O que encontraram no galpão foi o corpo decapitado de Bernice Worden, pendurado de cabeça para baixo como um animal abatido.

Dentro da Casa dos Horrores

Conforme os investigadores vasculhavam a propriedade, as descobertas tornavam-se progressivamente mais perturbadoras:

  • No quarto: A cabeça de outra vítima
  • Móveis e objetos: Abajures feitos de pele humana, máscaras faciais, roupas confeccionadas com tecido humano
  • Caixas organizadas: Nove vulvas em uma caixa de sapatos, quatro narizes em outra, um recipiente de aveia repleto de restos humanos
  • Outros itens: Ossos, seios preservados, vaginas, lábios e múltiplas cabeças

Posteriormente, investigações revelaram que Gein havia exumado pelo menos nove corpos do cemitério local. Ele confessou dois assassinatos: Bernice Worden e Mary Hogan, uma dona de taverna desaparecida em 1954.

O Julgamento e o Fim

Ed Gein se declarou culpado dos dois assassinatos. No entanto, foi considerado mentalmente incapaz de ser julgado. Portanto, foi internado no Central State Hospital, uma instituição psiquiátrica, onde permaneceu até sua morte em 26 de julho de 1984, aos 77 anos, devido a complicações de câncer de pulmão.

Ironicamente, ele foi enterrado no Cemitério de Plainfield — o mesmo de onde exumava seus “troféus” — em um túmulo não marcado, ao lado de seus pais e de seu irmão Henry.

O Legado Cultural: Três Clássicos do Terror

Embora os crimes de Ed Gein sejam inegavelmente horrendos, sua influência na cultura pop é impossível de ignorar. Basicamente, três dos personagens mais icônicos do terror cinematográfico nasceram diretamente de seus crimes:

1. Norman Bates — “Psicose” (1960)

Alfred Hitchcock adaptou o romance de Robert Bloch, que morava a apenas 50 quilômetros de Plainfield quando os crimes foram descobertos. De fato, o personagem Norman Bates incorpora vários elementos de Gein: a relação doentia com a mãe dominadora, a preservação do corpo materno e a personalidade dividida. Ademais, o filme revolucionou o cinema de suspense e estabeleceu novos padrões para o gênero.

2. Leatherface — “O Massacre da Serra Elétrica” (1974)

Tobe Hooper criou Leatherface inspirado diretamente em Gein, especialmente no uso de máscaras feitas de pele humana e na estética de açougueiro. Aliás, o filme foi baseado não apenas em um, mas em vários elementos da história real: o isolamento rural, a decoração macabra da casa e o tratamento de corpos humanos como material de trabalho.

3. Buffalo Bill — “O Silêncio dos Inocentes” (1991)

Thomas Harris criou Jame Gumb (Buffalo Bill) combinando características de três serial killers reais, sendo Ed Gein o principal. Assim como Gein, Buffalo Bill costurava “roupas” feitas de pele humana. O filme conquistou cinco Oscars, incluindo Melhor Filme, e consolidou definitivamente o perfil psicológico do serial killer no cinema.

Além do Cinema

Posteriormente, a história de Gein inspirou pelo menos dez outros filmes e séries, incluindo “Deranged” (1974) e “American Horror Story”. Sua fazenda foi incendiada por desconhecidos em 1958, mas, antes disso, diversos itens foram leiloados e posteriormente doados a museus. Aliás, a lápide de Gein no cemitério foi vandalizada tantas vezes que precisou ser removida.

“Monstro: A História de Ed Gein” — O Que Esperar

A nova temporada da série antológica de Ryan Murphy promete explorar não apenas os crimes, mas sobretudo o contexto psicológico e familiar que moldou o assassino. Charlie Hunnam (“Sons of Anarchy”) interpreta Ed Gein, enquanto Laurie Metcalf (“Lady Bird”) vive Augusta, a mãe dominadora. Adicionalmente, Tom Hollander (“Piratas do Caribe”) aparece como Alfred Hitchcock, sugerindo que a série também abordará o impacto cultural dos crimes.

Diferentemente das temporadas anteriores — que focaram em Jeffrey Dahmer e nos irmãos Menendez —, esta promete mergulhar na América rural dos anos 1940-50, explorando como o isolamento, o fanatismo religioso e a doença mental convergiram para criar um dos casos criminais mais perturbadores da história americana.

Reflexão Final: O Monstro e o Espelho

Ed Gein nos força a confrontar questões desconfortáveis sobre natureza versus criação, doença mental versus maldade pura, e como a sociedade lida com indivíduos que ultrapassam os limites do incompreensível. Afinal, será que Gein era um produto inevitável de sua criação tóxica? Ou havia algo intrinsecamente quebrado em sua natureza desde o início?

Certamente, o que torna seu caso ainda mais perturbador é o fato de que, por fora, ele era apenas um fazendeiro quieto e educado. Seus vizinhos o descreviam como “estranho, mas inofensivo”. Portanto, sua história serve como lembrete sombrio de que monstros nem sempre rugem — às vezes, eles sussurram educadamente enquanto compram anticongelante na loja local.

A nova temporada de “Monstro” chega em um momento em que o fascínio público por true crime atinge níveis históricos. Entretanto, resta saber se a série conseguirá equilibrar o apelo do entretenimento com o respeito devido às vítimas reais — um desafio que Ryan Murphy nem sempre superou em temporadas anteriores.


“Monstro: A História de Ed Gein” está disponível na Netflix desde 3 de outubro de 2025.