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Imagem: Javier Milei

Em novembro de 2023, o economista ultraliberal Javier Milei conquistou a presidência da Argentina com 55,69% dos votos válidos. Consequentemente, derrotou o candidato peronista Sergio Massa por mais de 11 pontos percentuais. Esta vitória representou uma guinada histórica na política argentina. Ademais, inaugurou uma nova fase nas relações entre Brasil e Argentina, os dois maiores parceiros comerciais do Mercosul. Portanto, compreender esse fenômeno político torna-se essencial para brasileiros que acompanham os rumos da América do Sul.

Quase dois anos depois, em outubro de 2025, Milei consolidou sua posição política. Seu partido La Libertad Avanza obteve 41,5% dos votos na província de Buenos Aires nas eleições legislativas, derrotando pela primeira vez o peronismo em seu tradicional reduto eleitoral. Nacionalmente, o partido conquistou 64 assentos na Câmara dos Deputados, contra os 37 anteriores. Portanto, o presidente argentino fortaleceu significativamente sua base no Congresso. Além disso, os resultados econômicos de 2025 mostram mudanças profundas. A inflação mensal caiu de 25,5% em dezembro de 2023 para 1,5% em maio de 2025. Entretanto, essas transformações impactam diretamente as relações com o Brasil e o futuro do Mercosul.

Os Fatos: Da Eleição à Consolidação Política

A campanha presidencial argentina de 2023 ocorreu em contexto de grave crise econômica. O país enfrentava inflação de 211,4% ao ano, desemprego crescente e dívida externa recorde. Massa, então ministro da Economia, representava a continuidade do peronismo. Por outro lado, Milei apresentava-se como completo outsider do sistema político tradicional. Curiosamente, o economista ficou conhecido inicialmente como comentarista de televisão, onde criticava duramente a classe política argentina.

No primeiro turno, realizado em 22 de outubro de 2023, Massa surpreendeu ao vencer com pequena margem. Entretanto, Milei conseguiu reverter o resultado no segundo turno. Sua estratégia incluiu alianças com o ex-presidente Mauricio Macri e a candidata derrotada Patricia Bullrich. Consequentemente, consolidou o voto da direita e de eleitores insatisfeitos com décadas de políticas econômicas que não resolveram problemas estruturais. Ademais, recebeu apoio explícito do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que compareceu à posse em Buenos Aires em dezembro de 2023.

Durante a campanha, Milei fez declarações polêmicas sobre o Brasil. Afirmou que não faria negócios com o governo Lula. Além disso, criticou duramente o presidente brasileiro e sua política econômica. Essas declarações geraram tensão diplomática mesmo antes da posse. Portanto, o governo brasileiro adotou postura cautelosa. O presidente Lula parabenizou as instituições argentinas pelo processo eleitoral. Entretanto, não citou Milei nominalmente em sua mensagem oficial. Similarmente, não houve contato direto entre os dois presidentes nas primeiras semanas após a eleição.

As Transformações do Governo Milei em 2024-2025

Após tomar posse, Milei implementou um pacote de “terapia de choque” econômico sem precedentes. Desvalorizou o peso argentino em mais de 50% no primeiro mês. Cortou drasticamente subsídios governamentais em serviços essenciais. Reduziu o número de ministérios pela metade. Consequentemente, essas medidas provocaram aumento imediato de preços e queda no poder de compra. Entretanto, o governo argumentava que eram necessárias para estabilizar a economia no longo prazo. Ademais, cortou mais de 50 mil cargos públicos e iniciou processo de privatização de empresas estatais.

Os resultados econômicos de 2025 mostram luzes e sombras. A inflação mensal caiu dramaticamente de 25,5% para 1,5% em maio, a mais baixa desde abril de 2020. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 36,6% em julho de 2025, contra 211,4% ao final de 2023. Portanto, o governo alcançou sua principal bandeira de controle inflacionário. Além disso, a Argentina registrou superávit fiscal primário em 13 dos 14 primeiros meses de governo. No quarto trimestre de 2024, o PIB cresceu 2,1% na base anual, sinalizando recuperação econômica.

Entretanto, os custos sociais foram significativos. A pobreza saltou inicialmente para 57% da população após as medidas de ajuste. Posteriormente, recuou para 35% em meados de 2025, representando queda de 22 pontos percentuais. Portanto, cerca de 10 milhões de argentinos saíram da linha da pobreza. Similarmente, os salários reais vinham caindo há 11 meses consecutivos, mas começaram a se recuperar. Ademais, a classe média foi especialmente afetada, com perda média de 16% no poder aquisitivo. Consequentemente, o ajuste fiscal severo gerou protestos de aposentados e funcionários públicos.

Contexto Econômico Atual: Brasil e Argentina em 2025

A relação comercial entre Brasil e Argentina mantém profunda interdependência. De janeiro a maio de 2025, o intercâmbio comercial entre os países do Mercosul alcançou US$ 17,5 bilhões. As exportações brasileiras para os parceiros do bloco superaram US$ 10,2 bilhões. As importações chegaram a US$ 7,2 bilhões. Consequentemente, o Brasil registrou superávit de US$ 3 bilhões no comércio com o Mercosul. Portanto, a Argentina permanece mercado estratégico para a indústria brasileira, especialmente setores automotivo, têxtil e calçadista.

O Mercosul, criado em 1991, estabeleceu zona de livre comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Consequentemente, produtos desses países circulam sem tarifas alfandegárias internas. Este acordo beneficia especialmente a indústria brasileira. Aproximadamente 95% das exportações brasileiras para a Argentina são de produtos manufaturados com alto valor agregado. Portanto, o comércio regional movimenta a indústria e gera milhares de empregos no Brasil. Similarmente, produtos argentinos acessam o mercado brasileiro com as mesmas vantagens comerciais.

Entretanto, Milei mantém discurso crítico sobre a estrutura do Mercosul. Em julho de 2025, durante a Cúpula do Mercosul em Buenos Aires, o presidente argentino deixou explícitas suas divergências. Afirmou que é necessário “parar de pensar no Mercosul como um escudo que nos protege do mundo”. Ademais, propôs pensar no bloco “como uma lança que nos permite entrar nos mercados globais”. Declarou que seguiria “no caminho da liberdade acompanhados ou sozinhos”. Portanto, ameaçou implicitamente a saída argentina caso não houvesse flexibilização das regras comerciais.

As Tensões na Cúpula de Julho de 2025

O encontro de julho de 2025 em Buenos Aires marcou o primeiro momento de Lula e Milei juntos desde a posse do argentino. A Argentina passou a presidência pro tempore do Mercosul para o Brasil. Curiosamente, foi a primeira visita do presidente brasileiro à Argentina em 18 meses. Tradicionalmente, presidentes argentinos visitam o Brasil primeiro após a posse. Entretanto, Milei escolheu Estados Unidos e Israel como primeiros destinos. Portanto, sinalizou realinhamento geopolítico argentino longe da tradicional parceria regional.

Durante a Cúpula, os discursos dos dois presidentes seguiram direções completamente opostas. Lula defendeu o Mercosul como “casa com alicerces sólidos” em um mundo “instável e ameaçador”. Afirmou que “estar no Mercosul nos protege” e que “nossa tarifa externa comum nos blinda de guerras comerciais”. Consequentemente, reforçou a visão do bloco como estratégia de proteção e fortalecimento regional. Ademais, anunciou prioridades brasileiras: fortalecimento comercial, transição energética, desenvolvimento tecnológico e combate ao crime organizado.

Milei, por outro lado, criticou duramente a estrutura do Mercosul. Chamou o bloco de “camisa de ferro” que limita liberdades econômicas. Durante sua presidência temporária de seis meses, ameaçou repetidamente sair do acordo. No Fórum Econômico de Davos, afirmou que deixaria o Mercosul se isso fosse condição para acordo com Estados Unidos. Todavia, reconheceu que existem mecanismos dentro do bloco para alcançar seus objetivos. Portanto, na prática, manteve a Argentina no acordo regional, apesar da retórica agressiva contra sua estrutura.

Resultados Econômicos e Suas Contradições

Os dados econômicos de 2025 apresentam paradoxos importantes. O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento de 5,5% do PIB argentino em 2025, tornando o país possivelmente o segundo com maior crescimento entre principais economias globais. Segundo projeções da Bloomberg Economics, a Argentina terá desempenho excepcional. Portanto, analistas internacionais celebram o “milagre argentino” promovido pelas reformas de Milei. Ademais, o país fechou acordo com o FMI para nova linha de crédito de US$ 20 bilhões em abril de 2025.

A administração Trump ofereceu resgate financeiro de US$ 40 bilhões à Argentina. Incluindo swap cambial de US$ 20 bilhões já assinado e linha de crédito para investimento em dívida. Consequentemente, a Argentina estreitou dramaticamente seus laços com Washington. O próprio Trump condicionou publicamente parte dessa ajuda ao desempenho eleitoral de Milei. Portanto, o país está se afastando da órbita de influência brasileira. Aproxima-se dos Estados Unidos de forma inédita na história recente sul-americana.

Entretanto, especialistas alertam para riscos significativos. A moeda argentina valorizou-se 44% em 2024, tornando-se a que mais se valorizou no mundo. Esta supervalorização do peso serve para ancorar a inflação. Todavia, num contexto de reservas negativas no Banco Central, cria vulnerabilidade a choques externos. Ademais, economistas argentinos como Gabriel Rubinstein alertam que o valor baixo do dólar pode incitar corrida cambial. Portanto, acende sinais de alerta sobre sustentabilidade do modelo.

Custos Sociais e Recuperação Parcial

A queda da inflação aconteceu principalmente pela redução do consumo popular. A deterioração da renda através de cortes em salários, aposentadorias e programas sociais contraiu a demanda. Consequentemente, os preços pararam de subir porque as pessoas simplesmente consomem menos. O setor de saúde teve aumento de 2,7%, bem acima da média. Portanto, aponta retrocesso no direito à saúde e desigualdades que o índice geral oculta. Ademais, serviços de água, gás e eletricidade subiram 248,2% em 2024, enquanto transportes aumentaram 137,8%.

Aproximadamente 10% dos pequenos comerciantes fecharam as portas devido à queda no consumo. A informalidade no mercado de trabalho cresceu significativamente. As famílias argentinas ainda não recuperaram sua renda no mesmo ritmo da queda inflacionária. Portanto, o custo social permanece alto mesmo com os avanços macroeconômicos. Entretanto, o governo Milei argumenta que esses são sacrifícios temporários necessários. Ademais, celebra a retirada de 10 milhões de pessoas da pobreza entre o pico de 57% e os atuais 35%.

Impactos para o Brasil: Riscos e Oportunidades

Para o Brasil, a situação argentina gera impactos ambíguos e complexos. Por um lado, uma Argentina economicamente estável seria parceiro comercial mais confiável e previsível. Ademais, reduziria riscos de crises que historicamente afetam toda a região. Por outro lado, a recuperação inicial veio acompanhada de retração no consumo argentino. Consequentemente, as exportações brasileiras para a Argentina mantêm tendência de queda observada nos últimos anos. Em 2012, somavam US$ 19,6 bilhões. Em 2022, caíram para US$ 15,3 bilhões. Portanto, a crise econômica argentina reduz o mercado para produtos brasileiros.

Diversos setores brasileiros enfrentam vulnerabilidades específicas. A indústria automotiva possui cadeias produtivas integradas entre os dois países. Veículos e peças circulam livremente através do Mercosul. Consequentemente, qualquer interrupção afetaria milhares de empregos em ambos os lados da fronteira. O setor calçadista brasileiro exporta cerca de US$ 203 milhões anuais para a Argentina. Sem o Mercosul, esses produtos enfrentariam tarifas de 35%. Portanto, eventual saída argentina do bloco seria catastrófica para este segmento específico. Similarmente, o setor têxtil vende aproximadamente US$ 250 milhões anuais para o mercado argentino.

Entretanto, especialistas avaliam que a ameaça de ruptura não se sustenta economicamente na prática. A Argentina precisa do mercado brasileiro muito mais que o Brasil precisa do argentino. A economia brasileira é cerca de seis vezes maior. Consequentemente, uma ruptura seria dramaticamente mais custosa para Buenos Aires. Ademais, a indústria e o agronegócio argentinos opõem-se firmemente à saída do Mercosul. Portanto, como observa o diplomata Paulo Roberto de Almeida, as posições públicas atendem a narrativas ideológicas internas. A interdependência comercial prevalece sobre a retórica política.

Mercosul e Acordo com União Europeia

O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia representa prioridade central da presidência brasileira do bloco. O texto básico está finalizado após mais de 20 anos de negociações. Entretanto, ainda depende de ratificação pelos parlamentos envolvidos. Lula manifestou confiança de assinar o acordo até dezembro de 2025. Portanto, estabeleceu meta ambiciosa para concluir negociação histórica. Ademais, o acordo criaria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.

Paradoxalmente, apesar de criticar o Mercosul, Milei celebrou em julho de 2025 o acordo entre o bloco e a EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio). Portanto, demonstra contradições práticas em seu discurso antisistema. Beneficia-se do Mercosul enquanto o critica publicamente. Curiosamente, durante sua presidência temporária, a Argentina não rompeu com o bloco. Manteve negociações comerciais importantes. Consequentemente, há distância significativa entre retórica de campanha e exercício real de governo. As instituições argentinas, incluindo Congresso e Judiciário, limitam ações unilaterais do Executivo.

O Que os Brasileiros Devem Saber

Para cidadãos brasileiros, especialmente aqueles que trabalham com exportação ou possuem negócios na Argentina, acompanhar esses desdobramentos torna-se fundamental. As relações comerciais continuam ativas e relativamente estáveis. Entretanto, empresas devem preparar-se para possível aumento de volatilidade cambial e política. A instabilidade argentina pode afetar contratos e pagamentos. Portanto, especialistas recomendam diversificação de mercados. Não depender exclusivamente da Argentina como destino de exportações.

Brasileiros residentes na Argentina devem atentar-se às rápidas mudanças econômicas em curso. A desvalorização do peso afeta significativamente o custo de vida. As reformas trabalhistas podem impactar direitos de trabalhadores. Consequentemente, buscar orientação jurídica e acompanhar mudanças regulatórias torna-se essencial. Ademais, o consulado brasileiro em Buenos Aires mantém canais de atendimento para esclarecimentos. Portanto, manter documentação regular e acompanhar comunicados oficiais é fundamental neste período de transformações profundas.

Do ponto de vista político, o caso argentino oferece lições importantes sobre democracia e polarização. A vitória de Milei reflete descontentamento profundo com políticas tradicionais que não resolveram problemas crônicos. Entretanto, também mostra riscos de propostas radicais que prometem soluções rápidas para questões complexas. Ademais, demonstra como crises econômicas prolongadas abrem espaço para experimentalismos políticos arriscados. Portanto, brasileiros devem refletir sobre paralelos com desafios nacionais. Especialmente sobre importância de políticas econômicas responsáveis e sustentáveis.

Acompanhando os Desdobramentos

Para monitorar as relações Brasil-Argentina, cidadãos podem consultar fontes oficiais confiáveis. O site do Ministério das Relações Exteriores (www.gov.br/mre) publica comunicados sobre política externa brasileira. Ademais, o Ministério da Economia divulga dados atualizados sobre comércio bilateral. Portanto, essas fontes governamentais oferecem informações precisas e atualizadas. Além disso, veículos de imprensa especializados em economia e relações internacionais fornecem análises aprofundadas sobre os desdobramentos regionais.

É importante distinguir retórica política de ações concretas no cenário atual. Declarações inflamadas nem sempre se traduzem em políticas efetivas. Consequentemente, observar medidas práticas é mais relevante que focar exclusivamente em discursos. O governo Milei, apesar da retórica antisistema, manteve a Argentina no Mercosul. Continuou negociações comerciais importantes com parceiros tradicionais. Portanto, há distância considerável entre campanha eleitoral e exercício real de governo. Ademais, as instituições argentinas exercem controles que limitam ações unilaterais.

Finalmente, brasileiros devem compreender que a integração sul-americana transcende governos específicos e ciclos políticos. As relações entre Brasil e Argentina possuem décadas de construção institucional sólida. Sobreviveram a diversos ciclos políticos em ambos os países. Consequentemente, embora o momento atual apresente desafios significativos, as bases estruturais da parceria permanecem sólidas. Portanto, a tendência é que pragmatismo econômico e interesses mútuos prevaleçam sobre divergências ideológicas pontuais. Ademais, a história regional demonstra capacidade consistente de adaptação e superação de momentos difíceis nas relações bilaterais.